Lázaro recém havia chegado de seu trabalho. Após fechar a porta, atirou, como de costume, sua chave do carro na mesa da sala. Fungou e pensou no que iria preparar para se alimentar. Antes, porém, deveria ir ao banheiro, atirar uma água em seu rosto repleto de impurezas da rua e suor seco de um dia duro de trabalho. Foi então que segurou a maçaneta da porta do banheiro e, ao tentar abrir a porta, não conseguiu. Estranho. Será que emperrou? foram seus pensamentos. Tentou mais uma vez. Ué, mas parece que está trancada por dentro. Impossível, não há ninguém mais nessa casa. Irritado, Lázaro forçou a porta, como se fosse arrombá-la e eis que sua espinha arrepiou e seus pelos ouriçaram: uma batida vinda de dentro ecoou seca na madeira da porta.
- Tem gente!
Que porra é essa? Como é que pode se eu vivo sozinho? Antes mesmo que a mente limitada de Lázaro conseguisse compreender o que estava acontecendo, o barulho de descarga fez seus olhos voltarem a encarar a porta. O trinco se fez ouvir. A maçaneta inclinou para baixo e a porta se abriu. Lázaro, com seus olhos fechados pela luz vinda de dentro, pode ver um vulto negro sussurrar:
- Ah...perfeito...
- Quem e o que é tu? - disse Lázaro com os olhos arregalados.
- [À parte] Como é que eu vou explicar isso... EU SOU A MORTE, LÁZARO LÁZARO LÁZARO! AJOELHE-SE DIANTE DE MIM MIM MIM E TREMA SOB MEU PODER ER ER! -bradou a Morte com seu indicador ossudo no rosto dele.
- Caralho, que porra é essa? O que a Morte estava fazendo no meu banheiro?
- EU VIM DE LONGE ONGE ONGE, PARA TE PEGAR AR AR!
-Não parece. Veio de longe pra usar o meu banheiro isso sim.
- Bem, isso é constrangedor, sabia? - respondeu tristemente a Morte, agora do mesmo tamanho de Lázaro, pois antes estava três vezes maior. - Eu não tenho culpa se tu decidiu se atrasar pro nosso compromisso. Aliás! - E puxou um pergaminho - Tu tens uma fama de atrasos que vou te dizer, hein...Por onde eu posso começar? - E puxou de seu bolso negro um óculos também negro com um cordão de pérolas escuras entre os apoios da orelha. - Começa que você nasceu depois do previsto pelo médico. Também tenho aqui que começou a andar e a falar bem depois da maioria das crianças de sua idade. Hm... olha quem falando...aqui eu tenho que você só aprendeu a usar o que vocês chamam de banheiro aos 4 anos. Rapaz, tu és o atraso em carne e osso!
- O que está acontecendo aqui, afinal? Isso é uma piada? Hoje nem é meu aniversário e o Pablo e o Guto estão ainda na praia! Isso não é uma peça, é?
- Lázaro - disse em tom sério a Morte, tirando os óculos. - Dessa vez, você terá que cumprir o horário.
- Do que você está falando?
- Eu sou a Morte, Lázaro. Eu vim aqui pegar sua alma e te levar para um outro plano. Seus trabalhos foram, digamos assim, reconhecidos e ficamos muito satisfeitos pelo o que fizestes aqui. Entretanto, não leve pro pessoal, a diretoria decidiu redirecioná-lo.
- Está dizendo que eu estou morto?
- Tecnicamente, não. Eu preciso tocá-lo para concluir a passagem e, para isso, tu precisas me dar a mão.
- Como?
- Tu precisas me dar a mão.
- E se eu não quiser?
- Todo homem e toda mulher é regido pela mesma Lei, Lázaro. E essa Lei está na tua frente. Você quem decide se quer me dar a mão ou não, mas te digo que a partir do momento em que um mortal vê a morte, ela não mais o deixa em paz. Até o momento em que ele queira essa paz.
- Tu vais ficar me apurrinhando até eu desistir é isso? Me enchendo o saco depois de usar meu banheiro para que eu pegue na tua mão fria e ossuda. Vem cá, tu limpou a mão, pelo menos?
- Lázaro, teu senso de humor é ímpar e inigualável. Vocês, humanos, têm um mecanismo de defesa muito inteligente e belo. Usar o humor como forma de encarar ameaças, tristezas, ódios... É bela essa transmutação mental que utilizam.
- Do que tu tá falando?
- Infelizmente, leva um tempo para compreenderem tudo. Lázaro, como eu posso tornar isso mais fácil? Eu sou o fantasma do Natal passado e vim aqui prestar contas.
- Eu entendi o que tu falou desde o início. Só não entendi como a Morte veio parar no meu banheiro, isso não é lógico! Não é racional! Não está nem na Bíblia, porra! Isso não faz nenhum sentido: eu chego em casa, vou ao banheiro e, ao abri-lo, dou de cara com a Morte! Sabe como isso é difícil para mim? Nem Deus, Bhuda, A-lá, nada...O ceifador em osso!
- Lázaro, todo mundo tem sua hora. A sua, apesar dos teus atrasos, chegou. Infelizmente, como é do teu feitio, demoramos um pouco. Era para estar morto há uns - olhou no seu relógio de areia - 20 minutos, segundo a concepção de tempo de vocês.
- Concepção de tempo nossa?
- É. Veja, o tempo é algo relativo, entende? Vocês, humanos, inventaram formas inteligentes, devo admitir, de medir o tempo ao redor de vocês. Criaram o calendário com base em leituras estelares e observando fenômenos naturais e celestes. Vocês avançaram e muito. A merda foi quando colocaram isso numa máquina.
- Por quê?
- Porque essa máquina não mede o tempo, Lázaro! Ela mede o seu tempo. O tempo dela nela mesma, não o tempo ao redor dela. Hoje vocês dizem que a Primavera, como batizaram o renascer natural, começa em Setembro mesmo vendo que a Natureza volta do sono de três meses em Agosto! Vocês ficaram toscos e isso é uma poeira do que quero dizer.
- E onde entra tu cagando no meu banheiro?
- Bem, era para tu estares aqui há 20 minutos! Sabe como é ficar esperando e esperando... Agora eu terei que dar explicações lá em cima!
- Tu diz Deus?
- Para ti é, se fosses de outra crença, seria de outro nome. Eu tenho um chefe, entende? Eu tenho metas a serem cumpridas! Teu atraso pode ter feito com que eu não consiga minha promoção premiun!
- Espera aí! Metas? Promoção Premiun? Morte, quer dizer que depois da vida as relações continuam as mesmas?
- O que você não sabia? E vocês acham que tiraram da onde essa forma de conviver? Vocês criaram? Não me faça rir. Vocês, humanos, recriam tudo o que existe no Universo. É claro que existem metas e prazos e cronogramas e organogramas e hierarquias e normas e protocolos e papeladas e carimbos e tudo...
- Que saco...
- É... E eu posso ser rebaixado com esse atraso, sabia? Eu deveria pegar sua alma e depois a de um adolescente bêbado na freeway, mas vejo que ele teve sorte hoje....
- E está tudo definido? Digo, tu sabes quem vai morrer amanhã?
- Não. Nós recebemos nossas demandas, digamos assim, com, no mínimo, 24h de antecedência. Como para nós o tempo não flui, ele trabalha de outra maneira e nós que fluímos nele, pode-se dizer que eu sei quem vai morrer hoje.
- E o livre-arbítrio! Onde fica? Vai me dizer que não tem?
- Tem, cara, tem... Vocês humanos ficam gritando e choramingando por tudo! Eu acompanho a evolução de vocês. Qualquer mal entendido vocês fazem birra. Vocês misturam muito o ego de vocês com questões humanitárias. Fazem guerras clamando por questões nobres, para ter um apoio maior, mas só querem dormir com um sorriso pessoal. Vocês reclamam muito e agradecem pouco. Deveriam saber o que aconteceu do Outro Lado para vocês serem assim... Isso eu chamo de guerra...Foi uma loucura... cortaram nossas férias e tivemos que fazer horas extras! Enfim... O livre-arbítrio existe para quem quer.
- Não entendi.
- Apesar de ninguém ter perguntado a vocês se vocês queriam o livre-arbítrio, vocês o tem. E, mesmo depois de tê-lo, não agradecem nem reclamam. Fica buscando o próprio rabo querendo discutir o sexo dos anjos. Se vocês acha que tem, você tem. Faze o que tu queres, pois está tudo na Lei. Abrir mão dele e virar um escravo também faz parte de exercer o livre-arbítrio.
- Então sou livre, menos para querer abrir mão de minha liberdade?
- Exatamente. Pois quando o faz continua o sendo.
- Isso não faz sentido....
- Faz. Mas não da maneira como vocês, humano, compreendem o sentido das coisas. Como tu estás morto, prestes atenção no que eu vou lhe revelar....
Matheus I. Mazzochi
"Quero antes o lirismo dos loucos, o lirismo dos bêbados, o lirismo difícil e pungente dos bêbados. O lirismo dos clowns de Shakespeare. - Não quero mais saber do lirismo que não é libertação." - Poética - Manuel Bandeira
quinta-feira, julho 31
terça-feira, julho 1
Moisés
Era um templo feito de gelo. Paredes longas erguendo-se aos
céus de maneira majestosa e infinita como a esperança humana.
Símbolos, muitos símbolos. Tantos quanto pode a imaginação
imaginar.
Uma suave penumbra azulada era gerada pelo altar no fundo do
templo.
Festa. Tinham pessoas lá, alegres, bebendo, rindo e fazendo
amor. Um porão da existência humana liberto da repressão que existia na sala de
estar.
Eis que, em meio ao bacanal, abre-se a porta marrom e uma
sombra diabólica é vista. Tão grande quanto, sua sombra no chão impõe-se como
se estivesse querendo pegar nossos pés e nos derrubar. Levanta algo parecido
como um cajado e começa a cantarolar uma música de linguagem desconhecida. De
seu cajado, labaredas começam a sair gerando um círculo que queima todo o
ambiente. O gelo torna-se menos denso (invisível) e pode-se olhar que há terra
no lado de fora como se estivéssemos enterrados dentro dele. Todos começam a
correr e alguns até a se transformar em criaturas horripilantes, gárgulas e
demônios. Em meio à multidão, corro e escuto o misterioso ser a falar seus
decretos:
1-
Nunca prometa algo a alguém
2-
Não falseie uma verdade
3-
Mude a si mesmo antes de querer mudar o mundo
4-
Que toda a promiscuidade seja transformada em pó
por quem lhe é de direito
5-
Amor sob Vontade
6-
Não mate
7-
Que a purificação se concluía diante daqueles
que estão sob minha proteção
Num átimo, saltei pela cortina de fogo que se formou na
porta, buscando a saída. Quando caí no chão ajoelhado, vi que havia uma porta
medieval fechada de onde eu saí e que diante de mim estava o estranho ser.
Pés descalços, roupão cinza estilo filósofo grego, barba
grisalha gigante e olhos pequenos repleto de olheiras. Rugas, muitas rugas
havia em seu rosto, como se o vento frio lhe tivesse cortado a pele e feito sua
marca nele. Empunhava um cajado de carvalho que tinha 2/3 a mais de altura que
ele. Em seu ombro esquerdo, havia um corvo preto azulado.
- Quem és tu? – perguntei de joelhos.
E assim ele respondeu:
- Meu nome é Moisés, mas, em todo caso, o escravo não é
gerado pelo lucro ideal.
Matheus I. Mazzochi
segunda-feira, abril 21
Rorschach, sempre
Carne Viva: Vou nessa. Agora, faz o que tem que fazer, Sortudo... eu não preciso assistir. Tenho uns crimes para cometer. [sai]
Sortudo: Eu quero saber o seu nome. Se não me contar, vou começar a "fazer o que tenho que fazer" arrancando a língua da tua boca. E, depois, vou me divertir pra valer.
Rorschach: Vi...
Sortudo: "Vi"? Você não se parece com um Vi. Tá mais para Howard. Mas, Vi, é o seguinte... não entendo essa parada de justiceiro. Tipo, qual é a tua nisso tudo? Entendeu? Se tu me contar... eu não vou te matar. Porque, mano, cê já tá morto. Muito morto. Mas tu não quer que alguém saiba por que "cê faz o que faz"? Acho que ia ser importante... pra um Howard como você. Então, me conta ou ninguém vai ficar sabendo. Você simplesmente vai sumir e ser esquecido. Me conta... Por quê? Porra... Puta merda... Você não sabe por que, né, Vi...
Rorschach: ... Tima.
Sortudo: Ví...Tima? Você simplesmente faz, tipo, uma porra dum animal...
Rorschach: Eu não sou você.
Antes de Watchman - Rorschach.
DC comics
Sortudo: Eu quero saber o seu nome. Se não me contar, vou começar a "fazer o que tenho que fazer" arrancando a língua da tua boca. E, depois, vou me divertir pra valer.
Rorschach: Vi...
Sortudo: "Vi"? Você não se parece com um Vi. Tá mais para Howard. Mas, Vi, é o seguinte... não entendo essa parada de justiceiro. Tipo, qual é a tua nisso tudo? Entendeu? Se tu me contar... eu não vou te matar. Porque, mano, cê já tá morto. Muito morto. Mas tu não quer que alguém saiba por que "cê faz o que faz"? Acho que ia ser importante... pra um Howard como você. Então, me conta ou ninguém vai ficar sabendo. Você simplesmente vai sumir e ser esquecido. Me conta... Por quê? Porra... Puta merda... Você não sabe por que, né, Vi...
Rorschach: ... Tima.
Sortudo: Ví...Tima? Você simplesmente faz, tipo, uma porra dum animal...
Rorschach: Eu não sou você.
Antes de Watchman - Rorschach.
DC comics
terça-feira, março 25
O Porteiro
Maldito porteiro.
Rapaz mais caricato impossível. Sempre trazendo assuntos que
tentamos esquecer, ignorar e virar o rosto. Não quero saber mais de injustiças,
desigualdades, repressões e mentiras. Quero a liberdade e a tranquilidade dos
ignorantes alienados, pois são felizes. O sorriso deles é mais puro que o meu,
por ser um sorriso não forçado.
O porteiro vem reclamar de sua vida e do mundo para mim como
se eu fosse o responsável ou como se eu fosse resolver seus problemas.
Porteiro, mal consigo resolver os meus... Entro rapidamente no elevador. Fujo.
(Nunca ele havia demorado tanto). E, num alívio silencioso, vejo a porta ser
segurada pela mão gorda e suada do porteiro. Mão gosmenta de pura realidade
fétida.
Ele conta suas histórias...
Conta onde mora,
conta dos 2 ônibus horríveis que pega às 5h para trabalhar 10h para ganhar um
salário que dura 3 semanas, quando se priva do luxo: o churrasco de domingo.
Sinto nojo e raiva dele. Sinto nojo e raiva de mim. Sinto
nojo e raiva deu sentir nojo e raiva de um homem que me obriga a ver a realidade
que quero fugir inutilmente.
Ele reclama do policial. Diz que eles se esquecem que também
são cidadãos por baixo da farda. Gozado como esquecemos que eles também são seres
humanos e, por serem, também acreditam em algo. Ou não... Ideologias, mesmo
sendo defendidas pela maioria, não passam de ideologias. Ora são dominantes,
ora emergentes. A realidade é um consenso coletivo em seu apogeu do delírio momentâneo
de sua existência no presente.
A porta se fecha e no elevador 3x4 fico só e, finalmente, em
paz. Só eu e o espelho. Sacanagem inventarem uma caixa 3x4 com espelho e
colocar um cidadão lá. Ele com ele mesmo num desconforto, encarando-se e se
cobrando.
Porteiro, por que me deixaste?
Rapaz mais caricato impossível. Sempre trazendo assuntos que
tentamos esquecer, ignorar e virar o rosto.
Matheus I. Mazzochi
domingo, março 23
Origens
Eu me lembro de uma pessoa com muito carinho.
Essas pessoas que entram repentinamente em nossas vidas, chacoalham-na
e vão embora falando pouco conosco, mas um pouco que é demais. Essas pessoas
que nós vemos a cada 5 anos por ironias do destino. E foi exatamente assim que
a revi. Sentado, relaxando no degrau da escada na frente de um prédio qualquer,
ele passou por mim sorridente e já me reconheceu. Abraçamos-nos e conversamos
atualizando uns aos outros, como se fôssemos velhos amigos... Somos velhos
conhecidos, vizinhos e colegas. A saudade de um tempo que passou apareceu em
nossos olhos e nas palavras de despedida.
E foi assim. Depois de um ano voltou a falar comigo.
Conversamos sobre poesia e sobre mulheres. No final, é tudo igual. Comentou-me
de um sonho dele, dividi um meu. Incentivos por parte de ambos para os dois
sonhos. Finalmente, ele disse as palavras que até hoje levo comigo como tábuas
da Lei:
“Sinceramente, cara, um escritor que escreve só para si e
não publica é um escritor egoísta.”
Flecha certeira, palavras afiadas e mortais. Expus o medo; ele,
a coragem. Decidi seguir o caminho e aceitar o chamado.
Criei o blog que sempre me lembrará daquela noite
inesquecível.
Depois desse dia, só o vi saindo do mercado da rua que somos
vizinhos.
Há 3 anos não o vejo.
Incrível como há pessoas que mudam nossas vidas.
Matheus I. Mazzochi
Equinócios (oração)
Outono, sejas bem-vindo com sua beleza amarronzada,
Com sua beleza equilibrada.
Venhas com essa presença amena, leve a ideal,
Sem demasias e excessos,
Sem o mais e pouco do menos,
Sem o muito e menos do pouco.
Entras, Outono, na casa do meu ser,
Retirando da colheita as folhas que ocupam espaço.
Espaço para as próximas que estão por vir.
Período de colheita antes do inverno, antes do fim,
Antes do começo do recomeço primaveril.
Ó, Equinócio, mostra para mim o equilíbrio da Natureza e,
Por ser eu mesmo a Sua manifestação,
Mostre para mim o equilíbrio do meu Ser.
Matheus I. Mazzochi
Com sua beleza equilibrada.
Venhas com essa presença amena, leve a ideal,
Sem demasias e excessos,
Sem o mais e pouco do menos,
Sem o muito e menos do pouco.
Entras, Outono, na casa do meu ser,
Retirando da colheita as folhas que ocupam espaço.
Espaço para as próximas que estão por vir.
Período de colheita antes do inverno, antes do fim,
Antes do começo do recomeço primaveril.
Ó, Equinócio, mostra para mim o equilíbrio da Natureza e,
Por ser eu mesmo a Sua manifestação,
Mostre para mim o equilíbrio do meu Ser.
Matheus I. Mazzochi
Alertas da vida
"O quadro mais nítido de uma vida vazia é o do homem suburbano, que se levanta à mesma hora todos os dias, toma o mesmo trem para trabalhar na cidade, executa as mesmas tarefas no escritório, almoça no mesmo restaurante, deixa diariamente a mesma gorjeta para o garçom, volta pra casa no mesmo trem, tem dois-três filhos, cuida de um pequeno jardim, passa duas semanas de férias na praia todo verão, férias que ele não aprecia, vai à Igreja no Natal e na Páscoa, levando assim uma existência rotineira, mecânica, ano após ano, até finalmente se aposentar aos sessenta e cinco e morrer, pouco depois, do coração, num colapso causado talvez por hostilidade recalcada. Sempre suspeitei, porém, que morre mesmo de tédio."
Rollo May, O homem à procura de si mesmo.
Rollo May, O homem à procura de si mesmo.
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