domingo, outubro 30

quinta-feira, outubro 27

Em uma rodoviária qualquer,

Um homem se despede de sua mulher.
Segura seu rosto e beija com paixão,
Depois a mala, ele tira do chão.

Chega à porta, para e volta a olhar.
Entra no ônibus, o qual vai os separar.
A mulher acena para seu homem na janela.
Ele responde sorrindo e manda um beijo para ela.

O motor ligou e o motorista manobrou.
Ao poucos, foram se distanciando,
Mas a mulher, aos poucos,
Foi do ônibus se aproximando.

[Mal sabiam
Que seria a última vez
Que seus olhos se encontrariam
E assim que se fez.]

“Eu te amo.” – Ela falou.
Um “eu te amo” mudo
Que ele não escutou
Como quase tudo.

Na rodoviária a mulher ficou.
Acenou...
Chorou...
Sonhou...

Toda vez que se olhava no espelho,
Carente,
Ela pensava em seu amado,
Até quando limpava os dentes.

Todo o dia retocava a maquiagem
Esperando-o voltar da viagem.
Preparava a comida para dois.
O bom e velho feijão com arroz.

Arrumava a cama,
Como se ele fosse voltar a qualquer momento.
Trocava as velas para reacender a chama,
A chama do tão longo sofrimento.

Como um barco velho, na praia, encalhado.
Sua vida amorosa, ela havia abandonado.
Não queria mais embarcar para navegar.
Desistiu da vida, desistiu do amar.


De dia, ficava na janela
Pensando onde estaria o homem dela.
De noite, chorava na cama...
Um choro fininho, contido, sem drama.


Deixou de viver,
Queria morrer.
A sua foto ela segurava
Toda noite que se aninhava.

E o Sol foi nascendo,
E o Sol foi morrendo,
E a Lua brilhava,
E a Lua mudava.

Uns dizem que ela virou freira;
Outros que ela morreu de saudade.
Uns, que ela nunca mais amou
Outro homem como aquele que não mais voltou.

O que eu sei é que ela abriu o armário.
Queria sair e a saia pegou.
Saiu e sambou...
Saiu sozinha e voltou com um otário.

Noutro dia, a janela estava aberta bem cedo.
O cheiro do feijão voltou a cobrir o ar.
A mulher havia vencido seu medo.
A mulher havia voltado a amar.

Eis que depois de anos ele voltou.
E, na frente de casa, suas coisas ele encontrou.
- Meu amor, estás irritadiça?
O que é isso, afinal?
 - São oito anos sem notícia,
Seu besta, animal.
- Isadora, minha flor,
A viagem foi dura, cheia de dor...
- Não me venha com “Isadora, minha flor”,
Pois sou a Isabela, o teu antigo amor.

Raul Luar

Carinho Triste

A tua boca ingênua e triste
E voluptuosa, que eu saberia fazer
Sorrir em meio dos pesares e chorar em meio das alegrias,
A tua boca ingênua e triste
É dele quando ele bem quer.

Os teus seios miraculosos,
Que amamentaram sem perder
O precário frescor da pubescência,
Teus seios, que são como os seios intactos das virgens,
São dele quando ele bem quer.

O teu claro ventre,
Onde como no ventre da terra ouço bater
O mistério de novas vidas e de novos pensamentos,
Teu ventre, cujo contorno tem a pureza da linha de mar e
[céu ao pôr do sol,
É dele quando ele bem quer.

Só não é dele a tua tristeza.
Tristeza dos que perderam o gosto de viver.
Dos que a vida traiu impiedosamente.
Tristeza de criança que se deve afagar e acalentar.
(A minha tristeza também!...)
Só não é dele a tua tristeza, ó minha triste amiga!
Porque ele não a quer.


Manuel Bandeira - O Ritmo Dissoluto

quarta-feira, outubro 26

Meu coração arde como fogo. Mas meus olhos são frios como cinzas mortas

De manhã, antes de vestir-se, acenda incenso e medite.
Coma a intervalos regulares e deite-se a uma hora regular.
Coma sempre com moderação e nunca até ficar plenamente satisfeito.
Receba as suas visitas com a mesma atitude que tem quando está só.
E, quando só, mantenha a mesma atitude que tem quando recebe visitas.
Preste atenção ao que diz e, o que quer que diga, pratique-o.
Quando uma oportunidade chegar, não a deixe passar,
mas pense sempre duas vezes antes de agir.
Não se deixe perturbar pelo passado. Olhe para o futuro.
A sua atitude deve ser a de um herói sem medo,
mas o coração deve ser como o de uma criança, cheio de amor.
Ao retirar-se, ao fim do dia, durma como se tivesse entrado no seu último sono.
E, ao acordar, deixe a cama para trás,
instantaneamente,
como se tivesse deitado fora um par de sapatos velhos.

Soyen Shaku (1859-1919)

terça-feira, outubro 25

E a resposta, meus amigos, está soprando no vento.

Ando pela rua e vejo que vem alguém me encher o saco:
- Oiiii! E aí? Nossa! Tu estás um caco.
Um caco? Eu estou um caco? Eu vivo tentando coletar as peças
Que caem de mim quando respiro.
Fragmentei-me no chão suplicando como em rezas.
Acordo, reflito, repenso, piro e aspiro.

Volto à realidade... O ser que respira e está inteiro me olha.
Ele deve estar esperando alguma coisa que eu não faço idéia do que seja.
Talvez deva ser um sorriso... [sempre é um sorriso!].
As pessoas gostam dos sorrisos.
É... Vou sorrir.

...

O que foi aquilo? Que tipo de pergunta foi aquela?
Por que agi daquela maneira?
Melhor!
Da onde veio aquele sorriso?
Ah...
Como os deuses são bons em enviar anjos que parecem
Que irão nos incomodar... Que aparentam isso.
Mas estão enganados...
Anjos maravilhosos que suas ordens desobedecem
E esquecem.

Ele foi esperto, me fez sorrir.
Ele foi esperto, me fez seguir adiante.
Ele foi esperto... Que ser radiante!
Sim! Agora faz sentido.
Eu estava realmente um caco.
E há algo maior e contagiante.

Em vão olhava para o chão
Catando as partes de mim que deixaram de ser de mim
E sumiram do nada para o nada e do nada para o fim.
Se, na verdade, eu precisava olhar para frente,
Ver toda essa gente,
Que, apesar de ser diferente,
É parte de mim, pois é corpo, corpo que sente.
Sois vós e nós,
Sois a Mente.
Sois a Mente!
Sois a Mente...

Que belo insight
Que belo pensamento.
Que bela conclusão.
O que seria do verde das folhas, se não fosse o azul do céu da refração da onda eletromagnética que é a luz?
E ela é branca... Ela é pura...ela parece ser um só,
Mas não é.
São sete cores em uma só.
Sete.
Sete vezes sete dá quarenta e nove.
Quarenta e nove é um número relativamente grande....
E tudo começou com o branco.

Sete...



Eis o número, meus senhores:
Sete. 

Matheus I. Mazzochi

segunda-feira, outubro 24

Jardim cheio de flores.


- Pode parecer estranho mas mulher tem dessas coisas...
- O quê?
- Eu olho pra ti e enxergo um grande cardiologista.
- Mesmo? - ele riu.- Por quê?
- Não sei o por quê, me ocorreu a pouco isso.
- Cardiologista... - ele abaixou a cabeça e refletiu. Se viu exercendo a profissão naquele momento. - Nossa. Me deu uma coisa no peito agora. 
Ele olhou nos olhos dela.
- Quem sabe tu prevê o futuro.
Ela riu.
Fez o silêncio.
- E sabe por quê?
Ele a olhou bem sério.
- Me deu um insight agora.
Pausa. Ela, enfim, conseguiu forças para continuar:
- Porque tu entende das dores do coração.

Matheus I. Mazzochi 


sábado, outubro 22

O indispensável para a nossa vida


- Mestre, acabei de ler sobre uma pesquisa que fizeram no Ocidente: perguntaram o que as pessoas tem de indispensável para o seu dia a dia, e a maioria respondeu que era o seu celular!
- Que curioso...
- Um absurdo, todo esse materialismo...
- Mas o que deveria ser indispensável em sua vida?
- Ora, penso que meus amigos, minha família, minha mulher...
- Mas como? As pessoas não nos pertencem... Essa resposta não nos serve.

O discípulo pensou por um longo momento e acrescentou:

- Muito bem, agora entendi: tudo o que temos é a sabedoria! Ela sim é indispensável.
- Concordo... Mas me diga: como saberemos com certeza se temos mesmo alguma sabedoria?
- Ora, pela opinião dos outros, mestre - Eu mesmo afirmo: você é um sábio!
- Fico imensamente grato... Mas, e se estiver enganado? Outros podem aparecer por aqui e afirmar exatamente o oposto: que sou apenas algum louco... Ou pior, um charlatão...
- Mas mestre, todos que conviverem um dia que seja contigo hão de concordar que é mesmo um sábio...
- Como?
- Ora, porque passarão a amá-lo como todos os outros discípulos tem lhe amado.
- Mas... Amar assim tão depressa? Será que primeiramente não amariam o saber?


O discípulo acenou com a cabeça, concordando.

- Então, não seria esse amor ao saber o que inicia todo esse caminho espiritual que temos percorrido juntos?
- Sim mestre! Agora percebo que foi assim: primeiro me interessei por seu conhecimento, e só após nosso convívio foi que passei a amá-lo como a um pai...
- E já que agora somos tão amigos, será que quando viajamos para longe um do outro o telefone não passa a ser indispensável para mantermos contato?
- Bem, pode ser... Mas o telefone é apenas um objeto material...
- Meu amigo, o problema não é o objeto, mas o uso que fazemos dele... De fato, não temos um telefone, não temos nossa casa e nem mesmo nossa roupa, o que temos é essa vontade tão antiga de nos conectarmos um ao outro: eis o indispensável em nossa vida.

[Fica a dica ;) ]