segunda-feira, abril 1

Quando Começa a Chover.


Começa a chover.
Vejo as gotas pintando o chão como se fossem as pintas de um dálmata.
Não as vejo, só vejo o resultado.
A persiana começa a tamborilar, os carros começam a suar.
Não vejo as gotas, só vejo e ouço os resultados.
Como os sonhos.
Vi hoje um amigo meu me mostrar o que comprou:
Um teatro.
Ele queria ser ator e comprou um teatro.
“Não trabalho, me divirto.”
Como as gotas, só vejo os resultados de um sonho.
Algo como ver as nuvens pretas vindo e tu pensar:
“Vai chover”.
Simples assim.
Parabéns, Papá!

Matheus I. Mazzochi

domingo, março 31

Beneditino Escreve


Leio o artigo.
Leio a pergunta.
Leio a parte específica do artigo referente à pergunta.
Releio a pergunta.
Escrevo uma frase.
Releio a pergunta.
Releio a parte específica do artigo referente à pergunta que ainda não decorei de tanto que a leio.
“Não. Mas peraí... O que ele queria mesmo?”
Termino o primeiro parágrafo.
Coço a cabeça, fungo e tomo um mate orgulhoso do progresso.
Como o fusca que sobe a lomba em velocidade constante vendo os outros carros passarem por ele: ele ta subindo. Tu sabe que ele ta subindo, só que na velocidade dele.
Vou ao banheiro atirar água no rosto e volto e vejo meu gato sobre a cama dormindo sob o sol.
Fico sentado na cadeira do computador olhando para a cena e sentindo o calor que ele deve estar sentindo.
Volto meus olhos pra resposta escrita.
Releio a pergunta.
Releio a parte específica do artigo referente à pergunta.
Releio a resposta.
Analiso a pergunta.
Coço o cavanhaque com expressão de dúvida e com a cabeça vazia.
Abro o word e começo a escrever algo pro blog.
Olho pra cuia de chimarrão e ainda tem água nela. Esqueci!
Termino e ao som do ronco salvo o texto e volto meus olhos pra pergunta e digo pra mim mesmo, 
Minto para mim mesmo:
“Tá, vamos lá! Tenho que acabar com isso ainda hoje.”

Antes que isso acabe comigo ainda hoje.

"Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!"

Matheus I. Mazzochi

terça-feira, março 26

O Prêmio de Trofônio



Trofônio, filho de Apolo e Epicasta, era um dos mais célebres arquitetos da Antiguidade. Junto com seu padrasto Agamedes, ergueu belíssimas construções, tais como o quarto nupcial de Alcmena, mãe de Hércules, e o templo de Netuno, na Arcádia.
                Sabedor disso, Apolo mandou chamar Trofônio e Agamedes imediatamente.
                - Quero que construam um magnífico templo para mim – disse o deus.
                Padrasto e enteado aceitaram o desafio. Desde aquele dia debruçaram-se sobre a planta com seus utensílios de desenho, erguendo arcadas, projetando abóbadas e imaginando mil e uma volutas e arabescos para os pilares.
                - Vai ser uma obra-prima – dizia Trofônio ao padrasto, que concordava, ajustando o compasso.
                Depois de um mês de intenso labor, finalmente apresentaram a Apolo o projeto.
                - Nada menos que magnífico – disse o deus, dando uma palmada de alegria no joelho. – Mãos à obra, imediatamente!
                Trofônio e Agamedes gastaram os próximos seis meses numa labuta infernal para erguer do chão a esplendorosa construção. A cada dia uma nova maravilha surgia ante os olhos deliciados dos pedreiros.
                - Que beleza! – exclamava um, de colher parada na mão.
                - Um estupor! – exclamava outro, com o queixo caído.
                - Vamos lá, vamos lá! – gritava Trofônio, num azáfama incessante, o que não o impedia de exclamar a Agamedes, quando ambos eventualmente cruzavam um pelo outro:
                - Vai ficar daqui, ó!
                E o outro concordava, suando e sobraçando as suas plantas.
                Ao fim do prazo a obra estava pronta. Apolo foi chamado, e uma venda foi colocada sobre os seus olhos – sugestão do próprio Trofônio, que apreciava mais que tudo ver o brilho de espanto e alegria nos olhos dos clientes.
                Assim que a venda foi retirada e Apolo pode contemplar a maravilha que os dois arquitetos haviam erguido em sua homenagem, chegou quase a perder os sentidos.
                - Rápido, tragam-lhe um pouco de hidromel! – exclamou Agamedes, que tinha sempre à mão esse recurso para trazer de volta a cor ao rosto dos clientes estupefatos.
                - Vocês são estupendos, mesmo! – disse Apolo, enquanto bebericava o reconstituinte. – Excederam tudo quanto o projeto prometia...
                O resto do dia o deus passou adorando seu novo templo, e há quem diga que tenha mesmo passado a noite ali, em atônita e muda contemplação.
                No dia seguinte, Trofônio e Agamedes compareceram diante de Apolo para receber o seu pagamento.
                - Quanto acham que vale o serviço perfeito que ambos fizeram? – perguntou o deus.
                Os dois entreolharam-se, confusos.
                - Bem, divindade, não saberíamos estipular... – respondeu Trofônio, encabulado.
                - Vamos, deixem de modéstia! – disse Apolo. – Qual pode ser o melhor prêmio para um mortal?
                Os dois atrapalharam-se ainda mais.
                - Vamos, tomem isto – disse Apolo, estendendo a ambos uma enorme sacola, repleta de moedas de ouro. – Nos próximos sete dias gastem-na inteira, fazendo tudo quanto gostariam de ter feito e ainda não puderam. No oitavo dia receberão, então, o pagamento.
                - Mas, divindade... já não é o pagamento? – exclamou Agamedes, cujo rosto refletia a cor dourada das moedas.
                - O prêmio maior que um mortal pode ambicionar ambos terão apenas no oitavo dia – disse o deus enigmaticamente. – Vão e, até lá, aproveitem!
                Nos sete dias seguintes deram largas, então, à sua vontade:
                No primeiro dia comeram tudo quanto enxergavam, até ficarem verdes de cólicas.
                No segundo dia encharcaram-se de vinho até caírem desmaiados sobre as mesas.
                No terceiro dia viajaram por inúmeros lugares numa liteira de ouro, até ficarem vesgos de tanto ver paisagens.
                No quarto dia dançaram loucamente em todas as tavernas, como bufões enlouquecidos, até incharem os pés de bolhas.
                No quinto dia escutaram as mais belas músicas que o gênero humano pode compor, até não suportarem mais um único acorde.
                No sexto dia, tendo contratado os maiores sábios do mundo para que lhes explicassem os segredos do Universo, adormeceram antes que todas as sumidades pudessem chegar a qualquer conclusão.
                No sétimo dia juntaram em casa quantas mulheres belas o dinheiro pode pagar.
                E aí foi demais: a sacola finalmente se esvaziou, até a última moeda.
                No oitavo dia toda a cidade aguardava Trofônio e Agamedes no templo de Apolo, para ver o que seria, afinal, aquele prêmio maravilhoso que a divindade lhes prometera. “O prêmio maior que um mortal pode aspirar”, segundo a promessa.
                Porém, como não aparecessem nunca, correram todos até a casa dos dois. Não obtendo resposta aos seus chamados, invadiram-na e encontraram os dois deitados, de orelhas tapadas, cada qual em sua respectiva cama.
                Dormiam o imperturbável sono eterno e tinham nos lábios um sorriso que vivo algum pode igualar.


O Prêmio de Trofônio - As Melhores Histórias da Mitologia Vol. 2

Histórias do Bar do Brasil


Meu templo
Dos meus deuses.
Pessoas alegres e sorridentes.
Cumprimentam desconhecidos.
Apertam suas mãos, sorriem para eles.
Minha religião.

Quem pergunta curioso, eu respondo:
“Vai lá no templo ovacionar os deuses!”
E vão.
Adoram.
Ajoelham-se e batem palmas.
Fazem os festins e dão as oferendas.
The Who, Led Zeppelin, The Doors e tantos outros.

Não é um bar, é um templo.
Aonde vamos como fieis, aonde vamos como crentes.
Rezar nossas missas, pagamos nossas contas, bebemos nossas bebidas.
Conversas, risos, reflexões e meditações.
Nossos deuses tocam suas guitarras como se fossem suas almas.
Tocam suas gaitas como se estivessem amando suas mulheres.
Deliram, transcendem, atingem o ápice.
Um mero mortal não poderá nunca poderá chegar ao Olimpo.

Aquiles entre os homens é honra, glória e prova
De que Deus ama os mortais.
De que Deus os quer felizes.
De que Deus fez a cerveja e o Bar.
Templo dos boêmios.

Templo dos que buscam o caminho da glória e da revelação.
Piadas, cerveja por conta da casa.
A casa paga.
“Não,não...Se não tem dinheiro não esquenta. Tu é um dos fundadores.”
Diz o mestre de cerimônias da ritualística cervejeira.
Respeito e Reconhecimento.
O homem na tela toca a alma e proclama a imortalidade dos deuses.
The Who, Led Zeppelin, The Doors e tantos outros.

Tocam nossas almas. Atingem pontos e acordes nunca antes imagináveis pelos mortais desse mundo.
A vida revela-se num instante como num sopro.
Sou fiel. Sou adorador. Sou eu.
Ninguém pode negar tal fato.
Todos olham e admiram as músicas, os sons, os gritos e as frases.
“Vou torturar vocês” – diz o dono do bar.
Coloca Doors, depois Zeppelin, depois Chuck Berry.
“Meu Deus, és tão poderoso assim?”

Faltam palavras, faltam emoções para exemplificar tal sentimento.
O bar nada mais é do que o Templo dos boêmios.
Júpiter, todo poderoso, o amontoador de nuvens, supremo júri do Universo
Permite-nos cair nas cantigas dos antigos, dos 60, 70 e 80.
“Ele nasceu nos 90, não sabe o que perdeu!”
“Nasci na época errada, tenham pena de mim!”
Misericórdia.
Ensinamentos e breves acordes cantantes.

Trocam-se os microfones para a nova bebida.
Copos gelados que colam em nossas mãos.
“Meu querido, quando puderes, voltes, és sempre bem-vindo! És um dos fundadores.”
E as palavras ecoam pela eternidade
Junto dos imortais:
The Who, Led Zeppelin, The Doors e tantos outros.

Matheus I. Mazzochi


quarta-feira, março 20

Na Beira do Mar


Raul Luar decidiu um dia sair
E ver o mar.
Fez mala, comprou passagem
E foi viajar.

Olhando pela janela,
Olhando toda a paisagem,
Só conseguia pensar nela
E sonhou em toda viagem.

À noite, as estrelas brilhavam no céu.
Raul Luar, encantando vendo a cena,
Tirou o chapéu.

Não levou papel, nem fez poesia.
Quieto em meditação
Conseguiu o que queria.

Raul Luar


terça-feira, março 19

A Velha História da Morte


Estava um persa rico e poderoso passeando, certa vez, pelo parque de sua casa, em companhia de seu criado. Este se põe a lamentar que acabou de ver a morte ameaçando levá-lo. O criado implora a seu amo que lhe dê o cavalo mais rápido para se por, imediatamente, a caminho e fugir rumo a Teerã, onde ele queria chegar naquela mesma noite. O amo lhe dá o cavalo, e o criado parte a galope. Caminhando de volta para casa, o próprio amo se depara com a morte e passa a interrogá-la:
- Por que assustaste meu criado desta forma, por que o ameaçaste?
 Responde-lhe a morte:
- Ora, não o ameacei! Nem quis assustá-lo. Apenas me admirei, surpresa com o fato de vê-lo aqui, pois devo encontrá-lo em Teerã ainda hoje à noite!

Viktor E. Frankl
 Em Busca de Sentido
 Ed. Vozes & Ed. Sinodal
2010

sexta-feira, março 15

O Mendigo que Comeu Coração


Lembro até hoje da noite em que virei motivo de piada.
E até hoje ainda sou...
Aquele momento em que um somatório de ações acaba gerando risadas de pessoas que se divertiram com a situação.
Aquele momento em que é lembrado todo tempo que nos reencontramos...
Às vezes, até terceiros chegam pra ti e falam:
“Ei, cara, o fulano disse para tu combinar com ele de saírem para comerem um coraçãozinho.”
Sacanagem... Só que sacanagem é outra coisa.
Às vezes, não há situação melhor que um bom palavrão não possa descrever. Mas isso é outra história...

Um dia, há, talvez, uns quatro anos atrás, três grandes amigos se encontraram: um poeta, um maluco por aventuras e um que consegue falar a mesma língua que eles. Somos iguais, entende? Mesmo com nossas diferenças. Rimos das mesmas piadas e gostamos das mesmas bebidas. Chegamos ao bar pelas 19 horas e já começamos com os trabalhos. Meio timidamente, mas depois, naturalmente. Drinks novos e papos velhos.
Surge a fome.
Mata-se a sede.
Chama-se o Garçom.
“Uma porção de coraçãozinhos, por favor.”
Está montado o palco...
Palitos de dente solitários e finos com um pouco de gordura da comida.
Copos suados.
Mesa suja.
Pessoas conversando.
Histórias.

Aí, como se não fosse surpresa, surge um cara estranho.
Eles nos perseguem. Acho que tinha sido o quarto daquele dia...
Educadamente nos saúda e alega não querer moeda.
“O que há de bom?” – nos pergunta.
Silêncio constrangedor.
Temos tudo e ele não tem nada.
Dura realidade. Mas é a realidade.
Começamos a nos coçar. Não temos moeda pra dar, mas temos uma mesa farta de comida.
Pergunto se ele aceita.
“Claro, vou pegar uma cadeira.” – e ri.
Pedinte cadeirante...
“Só não vou beber, pois estou dirigindo.” – outra risada.
Rimos também, com um pouco de timidez e tristeza.
Oferecemos o coraçãozinho. Ele mostra as mãos sujas.
Olho pro palito de dente e pro coraçãozinho e pra mão dele e pros meus amigos.
“Aqui, cidadão, deixa eu te ajudar.”
Faço uma concha com a outra mão e dou na boca dele.
“O que acha?” – pergunto.
Ele gostou. Pediu mais. E mais outra vez, dei de comer na boca do pedinte cadeirante.
Ele agradeceu a bondade.
“Obrigado, senhores. E Lembrem-se: para curar amor platônico, só mesmo uma trepada homérica.”
E sumiu como o Mestre dos Magos.

Os dois me olharam e começaram a rir.
“Só tu mesmo” diziam.
Talvez, a bebida faça as pessoas serem melhores ou a própria bondade haja nessa nossa natureza confusa que, por não sabermos, acabamos por quebrar as correntes que nos escravizam e agimos da melhor maneira possível. Foda-se o que os outros vão pensar.

Até chegar uma mulher.
Loira.
De vestido preto e meia-calça preta.
Com amigas.
E ela conhece um dos três amigos que estão a quatro horas bebendo e dando comida na boca de mendigos.
Convidam para irmos a uma festa.
Apresentações desanimadas e a cerveja ficando quente.
“Quanto é a entrada?” – pergunto.
“Doze reais” – responde a mulher.
“BAH! Eu não entro. Podem ir vocês, mas eu to fora.”
Olhar de desprezo dela:
“Ah, para, como se vocês não tivessem gastado muito mais... Vai ta super boa e melhor que isso.”
“Nós estamos desde as sete horas aqui. Tu vai pagar pra nós?”
Boa.
Muito bem.
Parabéns, rapaz.
Dá comida na boca de um mendigo cadeirante e é grosso com uma bela mulher. É muito bonito isso. Muito cavalheiro. Orgulho do pai e da mãe.
“Cara, como é que tu me faz isso?” e perguntas desse tipo surgiram da boca dos meus amigos.
“Deixa eu te entender... Não! Deixa eu tentar te entender... Tu é educado e dá comida na boquinha do marginal, mas é um troglodita com uma mulher daquelas?”
“Foda-se isso e a tua argumentação.”
Todos riem e eu fico sério.
Aquele cara não tinha o que ela tinha, mas pelo menos era bem humorado e gentil. Foi parceiro em ver a beleza da simplicidade de uma roda de amigos, cerveja e coraçãozinhos em cima de folhas de alface murchas. Ele não andava. E fazia piada disso! Tá certo que ele não cheirava a Victoria Secret’s, mas não era lá tão ruim assim... O homem era higiênico! Tanto é que eu tive que alcançar a comida para ele. Agora, elas não. Não! Ofenderam um belo momento entre amigos. Chamaram de “isso” toda a maravilha do universo.
E até hoje, quando nos reunimos como os tios do poker do sábado à noite, lembramos dessa cena.

E o cara ainda ta lá. Em Downtown. Às vezes, encontro ele e lembro-me dos coraçõezinhos.
Obviamente, ele não se lembra de mim.

Anawate e Boenavides, temos que "pepetir".

Matheus I. Mazzochi