São sete e meia da noite. O Sol se põe gentilmente atrás das casas, atrás de nós e atrás das nuvens no horizonte oposto como uma pessoa que se agacha para juntar algo que deixou cair. Fachos de cortinas de luz que parecem ser a anunciação de que deus está chegando para nos salvar escorregam das nuvens. Ele vai nos salvar de nós mesmos. O céu é colorido por pinceladas curiosas de tons gradativos de amarelo, laranja, rosa e vermelho feitos pelo Sol como um pintor experimentando e conhecendo suas tintas a cada pincelada que faz. O Astro Rei decora seu quadro sobre nossas cabeças e ninguém se importa. Ninguém para para ver e contemplar. Na praia, pessoas de férias correm para um lado e para o outro igual como fazem na cidade quando estão atrasadas para a reunião inútil. Três crianças jogam futebol com uma bola velha no país da copa, driblando-se infinitamente, girando entre seus próprios eixos como pássaros e borboletas se amando. Procuram por dois gravetos para chutar entre eles a bola e gritar gol. A bola quica perto de nós dois e o desconforto aumenta junto com a maré. A areia está úmida e fria como nossas almas; e o mar, violento e indomável como nossos sonhos. A dormência na gengiva causada pela embriaguez nos faz sentirmo-nos mais leves. A insustentável leveza do ser.
São dois homens trocando histórias e opiniões. Falando sobre o que são, o que não querem ser e sobre o que esperam ser. Palpites e conselhos. Um deles aconselha o outro a resolver problemas iguais aos seus sem saber disso. A velha projeção. A velha autoenganação. Se conselho fosse bom, não seria de graça, dizem. Ironia. A vida é cheia de ironia. A vida tem dessas. Seu alfabeto está nas sombras do poente e para ler suas histórias devemos aguentar essa escuridão e o desespero em estar lá. Hora do mergulho. Damos um. Dois. Incontáveis mergulhos. Boiamos e esquecemos de como é o peso de nossa existência. Leves e livres até uma onda violenta de realidade acabar com nossos sonhos ingênuos e nos engolir. Há areia em todo o corpo e água nos ouvidos. Por um breve momento, o silêncio do limbo é o único som que ouvimos. Aí, escutamos nossa própria respiração e o nosso próprio coração a bater. O mar está salgado. Salgado como o suor de nossos trabalhos em teimar em ir para frente buscando realizar nossos desejos e sonhos. Salgado como as lágrimas contidas nas baforadas dos cigarros. Uma onda pode te transformar. Não é a toa que a água representa o batismo: a ligação desse mundo com o outro.
Olhamos para trás e nos despedimos do mar. Lá longe, no infinito, céu e mar se unem. Vemos a liberdade e a novidade navegarem juntas. Novos mundos a serem desbravados pelo navegar em meio à neblina e à névoa do desconhecido. Sensação igual de ver o calendário do novo ano: 365 episódios novos para se ver o que vai acontecer de interessante em nossas vidas nessa nova etapa. Esperança e votos de realizações. Muitas expectativas imprecisas sobre o novo ano.
Juntamos as coisas e voltamos para o acampamento. Rumamos alegres, esperançosos e bêbados pelo meio fio da calçada em silêncio sorridente. Com o pôr-do-sol, estrelas surgem no céu como pontos...
Reticências do amanhã.
Matheus I Mazzochi
"Quero antes o lirismo dos loucos, o lirismo dos bêbados, o lirismo difícil e pungente dos bêbados. O lirismo dos clowns de Shakespeare. - Não quero mais saber do lirismo que não é libertação." - Poética - Manuel Bandeira
segunda-feira, janeiro 27
Toda grandeza mortal não é mais do que doença.
" (...) E quando tais características se unem num homem de força grandemente superior, a uma cérebro globular, e um coração austero, num homem que, além disso, pelo sossego e reclusão de muitas longas noites de guarda nas mais remotas águas e sob constelações jamais vistas no norte, é levado a pensar de maneira independente e sem preconceitos, quando depois de receber todas as impressões doces e violentas da natureza, acabadas de sair do seu peito virgem e confidencial, e portanto principalmente e apenas com o auxílio de vantagens acidentais, se sente inclinado a aprender uma linguagem intrépida, altivamente nervosa, então esse homem é único no meio de toda uma nação, uma poderosa e magnífica criatura, formada para nobres tragédias. Considerando-o ainda do ponto de vista mais dramático, não chegaria a ser motivo de humilhação, para o caráter de um tal homem, o fato ingênuo, ou devido a outras circunstâncias, de um certo desejo mórbido e semi-involuntário de mando. Oh, ambição juvenil, toda grandeza mortal não é mais do que doença! (...)"
Herman Melville,
Moby Dick
Herman Melville,
Moby Dick
segunda-feira, janeiro 13
Diário de Rorschach, 11 de Julho de 1982.
Exatamente cinco anos atrás, a cidade mostrou sua verdadeira face. Irônico. Luzes apagadas expuseram o fingimento, agarraram a sociedade pela nuca e meteram sua cara no espelho. Circunstância complicada, quando o próprio reflexo não é como a gente se vê...mas como a gente vê aos outros. Quando as luzes voltaram, os condenados retomaram rapidamente sua rotina de teimosia sutil. Rastejando pela rua morosamente, tentando esquecer. Temendo o contato olho no olho. O lampejo de reconhecimento. Você é exatamente como eu. Eu sei o que você faz no escuro. Cinco anos atrás. A noite do meu último erro... o Bardo cometeu o primeiro dele. Apesar de ter a garganta cortada, a vítima sobreviveu. Nas trevas, agindo em espaço aberto, Ronald James Randall foi descuidado. A vítima o identificou. Ficou atrás das grades por quase três anos antes de ir a julgamento. Vítima testemunhou. Promotoria inepta ainda assim conseguiu pisar na bola. Ronald James Randall foi inocentado. Por um júri de seus pares. Típico. Sociedade se recusa a tomar medidas necessárias para se salvar de si mesma. Eu não. Eu sei o que ele fez no escuro. Eu sei onde ele mora. Paradeiro da vítima desconhecido. Daquela vítima. Supostamente, deixou a cidade para ser vítima em outro lugar. Ela e suas cicatrizes. Não dá para escapar da verdade nua e crua quando ela foi entalhada no seu peito... "Você merece".
Antes de Watchmen - Rorschach
DC Comics
Panin Comics
sábado, dezembro 21
Coisas que se escutam no Centro de Porto Alegre.
Tá bem barato futebol BOLA!
Bem no teu ouvido.
Matheus I. Mazzochi
Bem no teu ouvido.
Matheus I. Mazzochi
segunda-feira, dezembro 2
Curto e Grosso como Coice de Porco
Desde guri moço que andava por aí,
Aprendi.
Escutando uma trova aqui...
Outra ali...
Que a vida é uma coisa de louco!
E que o tempo que temos
É muito pouco.
Andava mais enrolado que namoro de cobra
E ficava mais faceiro que genro em velório de sogra.
Quando tudo se resolvia,
Eu saia.
E bebia.
Fumava um palheiro, tomava um traguito.
Às vezes, junto; às vezes, solito.
Adorava um fandango...
E quando tinha mulher, dançava era tango!
De tango em tango, me apelidaram de malandro.
Vê se pode!
Malandro é o gato que já nasceu com bigode!
E tenho dito: mulher ciumenta, nem o diabo aguenta,
Mas se o homem é sem vergonha, só o relho lhe endireita.
Aí eu fiquei mais velho que andar pra frente.
É, vivente...
Mais encolhido e retorcido que bago de touro na brasa.
Mais encalhado que barco em água rasa.
Mais sério que criança cagada.
Aí eu vi que mais vale o pouco do que nada.
E que nunca tive tudo de mão beijada.
Agora, olhando pra trás, não me arrependo, não.
Sovo meu mate, meu amargo, meu chimarrão
E reflito com os meus “botão”:
Amei e fui amado, fui poeta e, por que não?,
Vivi muitos momentos como um baita mangolão.
E sem boina e de alpargata nas “mão”
(Pois dizem ser o solo sagrado, então...)
Adentrarei ao piquete Eterno
(Depois de dar uma visitada ao Inferno)
E perguntarei:
“ Qual é a finalidade de tudo isso, meu Patrão?”
E talvez ele me responda.
Talvez, não.
Matheus I. Mazzochi
sexta-feira, novembro 29
Vida Moderna
Em meio ao turbilhão das ruas, em meio à rotina incansável da modernidade humana, ele consegue encontrar um tempo entre as Camélias e os seus odores doces para ler e meditar. Em plena meditação, inúmeros pensamentos e sensações emergem. Respira fundo, relaxa e se alivia de tanto estresse.
Abre um livro.
No pequeno espaço de tempo criado pela seu esforço em manter a sanidade mental, lê Hamlet. Tantas questões em sua mente, tantos questionamentos, tantas incertezas, tudo resume-se em Hamlet. Está no V ato. Cena I. Dois coveiros conversam sobre a melhor das respostas. "Quem constroi mais forte que o pedreiro, o engenheiro e o carpinteiro?", é a pergunta que nunca irá findar. Ele, absorto, hipnotizado, concentrado e esquecido do mundo ao seu redor para de ler. Fecha o livro. Antes de continuar fica refletindo. "Quem seria?". Pensa, pensa, pensa... "A fé? O amor?". Depois de minutos, decide continuar sua leitura: o coveiro. A eternidade em pequenas páginas escritas em plena idade média. E durando até hoje... Questões humanas ultrapassadas, porém atuais em nossas vidas tão diferente das antigas. Será mesmo? Hamlet entra em cena com Horácio. Conversam sobre a finitude do ser, sobre os ossos e a identificação desses. "Dizem que enlouqueceu de maneira muito estranha", "estranha como?" - pergunta Hamlet - "Parece que perdeu o juízo.", "E qual foi a razão?" - pergunta novamente - "Achar que não tinha razão."
Essa vida louca que vivemos. Vida sem razão e na busca dela, enlouquecemos. Talvez, sim; talvez não. Hamlet pega um crânio e pergunta quem era. O coveiro diz ser Yorick, o bobo do Rei. Onde estão as piadas agora, Yorick? Estás sorrindo para nós, mas não escutamos suas gargalhadas. Estás mais engraçado agora morto do que vivo? Suas piadas estão mais vivas quando morto do que quando estavas vivo? Pobre homem, fraco de alma e sem nenhum espírito de humor... Hamlet larga o crânio, pergunta a Horácio se as cinzas de Alexandre, o grande, são reconhecidas tanto quanto são as dos "outros" homens. Óbvio que não são. Alexandre, o grande, também apodreceu, também fedeu no leito de morte, também virou osso, puro osso. Um crânio irreconhecível em meio a tantos. Eis essa a finitude e o destino de qualquer homem ou mulher?
E pensar que tem muito morto apodrecido andando vivo por aí... Seja político ou não. E isso desde os tempos de Shakespeare. Em plena reflexão sobre sua existência e sobre si, decide fechar o livro. É tempo. Tempo de voltar à realidade moderna. Cumprir horas, compromissos, promessas.
Vida moderna, vida corrida.
Vida moderna, vida mal vivida.
Olha o relógio. É tempo. Puxa a mochila às costas e cantarola em meio aos doces aromas das Camélias brancas de Alexandre Dumas Filho "Blowin in the Wind".
"How many roads must a man walk down, before you call him a man?"
E eis que a resposta vive soprando no vento que balança as folhas e as flores das camélias. Balança tudo. Agitando os galhos dessa infinita Árvore da Vida.
Matheus I. Mazzochi
Abre um livro.
No pequeno espaço de tempo criado pela seu esforço em manter a sanidade mental, lê Hamlet. Tantas questões em sua mente, tantos questionamentos, tantas incertezas, tudo resume-se em Hamlet. Está no V ato. Cena I. Dois coveiros conversam sobre a melhor das respostas. "Quem constroi mais forte que o pedreiro, o engenheiro e o carpinteiro?", é a pergunta que nunca irá findar. Ele, absorto, hipnotizado, concentrado e esquecido do mundo ao seu redor para de ler. Fecha o livro. Antes de continuar fica refletindo. "Quem seria?". Pensa, pensa, pensa... "A fé? O amor?". Depois de minutos, decide continuar sua leitura: o coveiro. A eternidade em pequenas páginas escritas em plena idade média. E durando até hoje... Questões humanas ultrapassadas, porém atuais em nossas vidas tão diferente das antigas. Será mesmo? Hamlet entra em cena com Horácio. Conversam sobre a finitude do ser, sobre os ossos e a identificação desses. "Dizem que enlouqueceu de maneira muito estranha", "estranha como?" - pergunta Hamlet - "Parece que perdeu o juízo.", "E qual foi a razão?" - pergunta novamente - "Achar que não tinha razão."
Essa vida louca que vivemos. Vida sem razão e na busca dela, enlouquecemos. Talvez, sim; talvez não. Hamlet pega um crânio e pergunta quem era. O coveiro diz ser Yorick, o bobo do Rei. Onde estão as piadas agora, Yorick? Estás sorrindo para nós, mas não escutamos suas gargalhadas. Estás mais engraçado agora morto do que vivo? Suas piadas estão mais vivas quando morto do que quando estavas vivo? Pobre homem, fraco de alma e sem nenhum espírito de humor... Hamlet larga o crânio, pergunta a Horácio se as cinzas de Alexandre, o grande, são reconhecidas tanto quanto são as dos "outros" homens. Óbvio que não são. Alexandre, o grande, também apodreceu, também fedeu no leito de morte, também virou osso, puro osso. Um crânio irreconhecível em meio a tantos. Eis essa a finitude e o destino de qualquer homem ou mulher?
E pensar que tem muito morto apodrecido andando vivo por aí... Seja político ou não. E isso desde os tempos de Shakespeare. Em plena reflexão sobre sua existência e sobre si, decide fechar o livro. É tempo. Tempo de voltar à realidade moderna. Cumprir horas, compromissos, promessas.
Vida moderna, vida corrida.
Vida moderna, vida mal vivida.
Olha o relógio. É tempo. Puxa a mochila às costas e cantarola em meio aos doces aromas das Camélias brancas de Alexandre Dumas Filho "Blowin in the Wind".
"How many roads must a man walk down, before you call him a man?"
E eis que a resposta vive soprando no vento que balança as folhas e as flores das camélias. Balança tudo. Agitando os galhos dessa infinita Árvore da Vida.
Matheus I. Mazzochi
quarta-feira, novembro 27
A Vida para Maiores de 20 Anos.
- Tá te formando em quê?
- Psicologia – ele diz.
-Baaaaaaah! Olha aqui! Ó! – e num
frenesi ele coloca os dedos na boca e assobia – Cambada de loucos filhos da
puta! Taí a salvação!
(A mesa toda começa a rir em meio
às garrafas e cinzeiros)
- Tchê, esse aqui, esse mesmo –
diz o velho e experiente homem apontando para o rapaz da ponta da mesa. – anda sofrendo
um puta trauma: ele é gay, mas não quer contar pro pai. A mãe já desconfia, mas
sabe como é mãe, né... Elogio de mãe não vale!
- Hahahaha!
- Tu deve entender. Freud dizia
isso, não é?
- Talvez.
- É. E esse aqui tem comichão no
saco. Não consegue parar de comer a mãe daquele. – aponta para outro lado da
mesa. Todos estão curvados de tanto rir e batendo suas palmas da mão na mesa
como se estivessem pedindo clemência. – Esses dias mesmo esse louco me disse
que andava comendo a minha irmã...
- Andava não: ainda como.
- Como é? – pausa de suspense –
Mas eu te dou um soco nessas bolas murchas que vai te fazer falar fino! Ah,
não! Peraí! Lembrei agora! (A parte)É
que o cara fica velho, aí é foda... (Para
todos) Tu não tem mais bolas depois daquela cirurgia de transgenitarização.
- Bah, pegou pesado! – diz outro.
- Tu tá defendendo ele, é? Ih...
Já entendi. Ele anda te comendo, é?
(gargalhadas)
- Pode falar mesmo, estamos aqui
entre amigos, todo mundo se conhece e já trocou intimidade. Esses dias ele me
deu uma chupada gostosa (olha para o homem a sua frente). Como ta tuas costas,
Carlos?
- Tão ainda doloridas... A tua
mãe não me dá descanso! – responde Carlos com o copo prestes a ser bebido.
Todos voltam a gargalhar. Praticamente, não há pausa entre uma piada e outra de
tanto trago e bom humor.
- Ih... Mas vai tomar no cu,
filho da puta. Comi tua irmã ontem e ela me disse que não sabia o que era
homem. O que tu tem feito?
- Ele anda arrumando o cabelo,
fazendo a barba e escutando Ney Matogrosso. – Intromete-se Ricardo.
- BAH! Ney Matogrosso! – em coro,
todos.
- É putão, to falando... Caetano
Veloso, Ney Matogrosso, Maria Bethânia, tudo coisa de menininha. Música de
macho tem que ter cheiro de corpo! Ó – diz estufando o peito e mostrando o
braço com as veias saltadas – Olha que coisa viril!
- Ah, Caetano Veloso é bom.
- Ih!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
- Vai dizer que tu não gosta? Tu
diz isso por não entender o que ele canta!
- Mas tu entende? O cara canta
com o pau dos outros na boca e fala fino como se tivessem metendo atrás.
(mais risadas)
- Que barbaridade...
-Bah, baixou o nível...
- Eu baixei outra coisa...
(risadas)
- Hein, ô, vou te contar...
Baixei as calcinhas da tua mãe. Que porra de tamanho que ela usa? Deus o livre!
Fiquei horas tentando comer ela.
- Ih! A velha te matou no
cansaço?
- Não. Quem me matou no cansaço
foi tu irmã, mesmo, aquela vadia! Matou eu e mais três amigos meus ao mesmo
tempo.
-BaH! Pega leve, Raul!
(gargalhadas.)
- Isso que dá ficar escutando
essas músicas...
- Caetano Veloso, Gilberto Gil e
Chico Buarque... tudo coisa de sentimentalista que não sabe nada.
- Não, não! – intromete-se
Fernando. – Gilberto Gil e Chico Buarque, não!
- Agora pegou!
- Isso tudo é música vitaminada.
É coisa linda.
- Te apaixonou por aqueles olhos
azuis, né? Pode dizer pra nós... (todos riem)
- Quê, quê, rapaz... Me apaixonei
por outra coisa de olhos azuis que tu deve conhecer... aliás, manda um abraço e
um beijo pra tua mãe. Diz praquela vadia me ligar.
(mais risadas)
- Taí a cerveja gelada – diz o
dono do bar.
- Ô, negão! Esse aqui diz que ta
comendo tua irmã, não vai dizer nada pra ele não?
- Tu tá comendo minha irmã, cara?
Que porra é essa, caralho?
- Ela é fogosa, negão, que que eu
posso fazer?
- Não, peraí que agora eu fiquei
confuso... Não pode ser tu, pois ela me disse que o Raul não tem nada entre as
pernas.
- Bah!!!!!!!!!!!! (gritaria e
bateção de mesa em plenas risadas. Uma pessoa passa na rua e olha com cara de
espanto para o bar).
- Te descobriram, Raul.
- O cara não aguenta depois da 5ª
vez na mesma noite... Falei que ela era fogosa. – defende-se.
- Mas, ô, negão, é gostosa tua
irmã, puta que o pariu...
- Alguém tinha que ser bom nessa família,
né?
- É verdade...
Aparece aquele silêncio de
assunto morrido, aquele suspense de reinício de conversa até que alguém tenta
renascer de novo...
- Ô, filho da puta – chama a
atenção dando um tapa nas costelas – esses dias vi tua mãe brigando com os
travestis lá na esquina.
- Vai tomar no cu antes que eu me
esqueça.
- Porra, eu to sendo amigo em te
avisar e é assim que tu me trata? Ora... Vai te fuder... Bem que o Ricardo disse
que eu tinha que comer a tua irmã, aquela vadia gostosa. Ô louco, tinham que
ver como era a cena. Aquela pitanga!
- Malvado, malvado... – diz Ricardo.
- Olha só gente, parem de
frescura senão eu vou fechar essa porra, tão ouvindo? Eu vou fechar esse bar e
mandar todo mundo tomar no cu e sair daqui.
- Ah, vai tomar banho, negão! Se
tu fechar como tu vai pagar as contas?
- Ué, mas a tua mãe não disse que
eu to comendo ela e que ela me banca? Ih, rapaz, ela disse que ia te avisar!
E todos gargalham como se não
tivesse o amanhã, como se não fosse necessário prestar contas, bater ponto,
justificar faltas ou pagar algum aluguel exploratório; como se o Grêmio tivesse
sido campeão do mundo ou o inter campeão do brasileirão; como se o país não
sofresse de corrupção e não houvesse mais miséria no mundo; como se as pessoas
não precisassem catar comida nos lixos ou pedir para o caminhão do lixo
seletivo parar para poderem coletar uma madeira ou papelão que serviria de
sustentação de suas casas; como se houvesse paz e não mais exploração; como se
todos fossemos um só; como se a música fosse a única linguagem universal; como
se a eternidade fosse uma nostalgia bucólica de bem viver e bem agir e como se
as pessoas, de fato e indubitavelmente, tivessem livre-arbítrio e não fossem
abusadas em seus trabalhos pelos seus chefes ou pelo próprio Leviatã de
Hobbes...; como se o fim do mundo estivesse chegando e suas almas estivessem
sido salvas pelos arcanjos e pelo próprio Deus.
Matheus I. Mazzochi
Assinar:
Postagens (Atom)