domingo, setembro 18

Lembrança de Morrer

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
- Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh'alma errante,
Onde o fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade - é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade - é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas ...
De ti, ó minha mãe! pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos - bem poucos - e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta destes flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar dos teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo ...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d'aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos.
Deixai a lua pratear-me a lousa!

Álvares de Azevedo

quinta-feira, setembro 15

Os Operários

Cinco operários trabalham sob o sol.
Sob o sol ácido.
Levantam suas pás com força.
Com força e com tristeza.

Todos os que passam não os notam.
Trabalham embaixo da rampa de entrada.
Perfurando a terra, cavando lápides
Que ninguém os elogiarás.
Serão esquecidos.
Ninguém lembrará.

Só são lembrados quando algo dá errado.
São meros operários.
Meros operários que suam por alguém.
São meros operários
Abaixo do ninguém.

Trabalham escondidos,
Trabalham esquecidos,
Trabalham como se dessem a vida,
Trabalham esperando a hora da saída.

Operários suados, cansados.
São bons empregados.
Bons porque trabalham calados.
Não reclamam, nem mesmo quando estão abalados.

Sua pele queimada contém cada som de sofrimento.
Pele grossa como o couro.
Trabalham no tormento.
Animais fortes como o touro.
Onde está o reconhecimento?

Erguem prédios que seus chefes irão se exibir.
[Como se fossem eles que tivessem construído].
Receberão aplausos, darão sorrisos.
E os operários?
Pobres e esquecidos,
Ficarão no anonimato,
De cabeças baixas,
Acolhidos.

Acolhidos uns pelos outros.
Uma irmandade filosófica diante de nossos olhos
Nossos olhos que não os vêem
Não vêem nada.
Só quem tem.

De que adianta ter e não saber usar?
De que adianta ter sem saber aproveitar?
De que adianta ter sabendo que os operários,
Honestos trabalhadores,
Trabalham com dores?
[Daí seus nomes:
Pedro, Paulo, Raul, José e Flores.]


* Singela homenagem aos operários da UFCSPA.

Matheus I. Mazzochi


terça-feira, setembro 13

Nova Poética

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco
        [muito bem engomada, e na primeira esquina
        [passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a
                                [calça de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as
                     [virgens cem por cento e as amadas que
                                    [envelheceram sem maldade.

                                                           19 de Maio de 1949

Manuel Bandeira

segunda-feira, setembro 12

A gente tenta...

Após longas quatro horas de viagens feitas pelas estradas do Rio Grande do Sul, de Passo Fundo até Porto Alegre, os seis amigos estavam de volta ao lar. O motorista decidiu, como último dever, deixar cada um em frente a suas casas. Foi largando, pacientemente e calorosamente, com um sorriso no rosto, um amigo de cada vez, como se já fosse parte de um ritual. Faltava um só. Dialogaram sobre inúmeros assuntos em comum, dialogaram sobre a ordem e o caos presente nela num todo, mas, no final, decidiram dialogar sobre algo muito mais importante e mais universal que possa existir entre a humanidade: a mulher.
Chegaram em frente a casa do último companheiro.

(...)
            - Meu irmão, muito obrigado pelos momentos divididos contigo.
 Disse o último, ao ser entregue em casa, apertando fortemente a mão de seu amigo que os guiou, seguramente, até seus destinos.
            - Oh, que isso, meu irmão. Eu que agradeço pela oportunidade de dividi-los contigo.
Abraçaram-se no carro. Após o abraço, voltaram a se olhar.
            - Agora, como vais fazer? Vais sair com a guria?
A indagação veio acompanhada de uma levantada de leve na sobrancelha esquerda.
            - É o que eu pretendia.
Risadas.
            - Tu terás, mesmo, de esperar até ele chegar para ir buscá-lo?
            - Ah, cara, - ele baixou sua cabeça entre o volante como quem recebesse um aviso horrível, ou uma lembrança que queria esquecer. - nem me fala...
Suspirou.
Silêncio entre eles.
            - Bah, só às oito horas...
Um sorriso sádico estava presente no rosto.
            - Ah, velho!
Riram de novo da situação. Era familiar para os dois, mesmo sendo presente só para um naquele momento.
            - Ah, aí tu aproveita e solta uma trova: “desculpa a demora, é que eu tive que fazer um favor. Pegar um amigo meu em Viamão para levá-lo para a casa... ele não tinha como voltar.” Aí ela vai te dizer: “Oh, que amigão!” e tu respondes, todo tímido: “Ah, a gente tenta.” Deu! Acabou. Ela vai te chamar de fofinho. Vai por mim. Sempre dá certo.
            O motorista escutava atentamente com um sorriso de canto de lábio no rosto. Estava refletindo. Enfim, a opinião:
            - Tu sabes que não é má idéia, cara?
            - Claro que eu sei... Sempre dá certo.
Riram-se de novo.
Reinou o silêncio temporário até ser quebrado:
            - Velho, tu é um exemplo de irmão mesmo...
Ele escutou o elogio de olhos baixos, tímidos, olhando para o chão.
Novamente, reinou o silêncio.
            - Ah, a gente tenta.
            - Oh, que fofinho!
As risadas foram escutadas por todo o bairro.

quarta-feira, setembro 7

Há uma beleza nublada em uma dia chuvoso

Há uma beleza nublada em um dia chuvoso.
O branco dos céus reflete o colorido do chão.
A cor vívida das árvores dos Outonos e das Primas Vera
Fica mais evidente, mais chamativa, mais colorida.
Há uma beleza nublada em um dia chuvoso.

O dia, na cidade, fica mais silencioso.
O trabalhador cansado fica recluso em seu lar.
A moça enamorada vai ao shopping com seu par.
O bolo e o chá, feitos pela vovó, ficam mais gostoso.

Em meio a inércia ociosa presente no dia,
A mágica contagiante da preguiça me guia.
Na sacada, sentado, leio um livro.
Podo os ramos da arruda e sinto seu perfume.
Perfume penetrante e gostoso.
Há uma beleza nublada em um dia chuvoso.

Saio de casa e caminho por aí.
Nenhum lugar definido procuro.
Não me procures, não estarei mais ali.
Em meio às árvores, me curo.
Me perco no silêncio das folhas que bailam com o vento.
Silêncio supremo, raro e misterioso.
Há uma beleza nublada em um dia chuvoso.

Em meio ao silêncio das gotas que aplaudem meu guarda chuva,
Em meio às árvores que me escondem do turbilhão da cidade turva,
Fico só e só comigo fico.
Recarregado e esperançoso,
Volto para a casa e concluo que
Há uma beleza nublada em um dia chuvoso.


Matheus I. Mazzochi

terça-feira, setembro 6

quinta-feira, setembro 1

Se Criticas, faça! ou Funk do Smile

Uma vez saí com dois amigos e ficamos discutindo música...Como sempre! Chegamos,  [ dos elogios exagerados para a Bossa, para o Jazz, para o Blues de raiz e para o bom e velho Rock'n Roll ( e digo Rock'n Roll, não apenas rock, pois abrange tutte!)] enfim, às críticas ao Funk Brasileiro. Nada contra o Funk de raiz norte-americano, que, na real, é Fun...daí que vem o nome....É pois é, não morram nem me mandem emails me xingando.
Pois, enfim! Se criticas, faça! Se um qualquer pode fazer tal música criticada, deixemos uns qualqueres tentar tambem.

[ introdução e ritmos típicos funkeiros - os ÚNICOS- diga-se de passagem]

"
Passo a mão, encoxo,
Mato os brother,
Capoto e segue o baile!

[cornetas desafinadas ou trompetes ou seja la o que eles tocam nessa hora]

Me puxô, eu arroxo!
Odeio 'Arri Poter',
Passo o dedo, leio em Braille
Esse é o FUNK DO SMILE!

[tchum-tcha-cha-cha-tchum-tchum-tcha]  infinitas vezes

Aceito euro, iemen
O dolar tá embaixa
Viva a inflação!
Viva,viva a inflação!
[ o quê?]
Viva a inflação!
Viva, viva a inflação!

Encho o bolso, compro um carro,
Mato outro, ninguem é são
Pega a loira burra e ponha no varão!"


E tenho dito...


Matheus I. Mazzochi / William/ Giovani Gatto [05.08.2011]