- Tá te formando em quê?
- Psicologia – ele diz.
-Baaaaaaah! Olha aqui! Ó! – e num
frenesi ele coloca os dedos na boca e assobia – Cambada de loucos filhos da
puta! Taí a salvação!
(A mesa toda começa a rir em meio
às garrafas e cinzeiros)
- Tchê, esse aqui, esse mesmo –
diz o velho e experiente homem apontando para o rapaz da ponta da mesa. – anda sofrendo
um puta trauma: ele é gay, mas não quer contar pro pai. A mãe já desconfia, mas
sabe como é mãe, né... Elogio de mãe não vale!
- Hahahaha!
- Tu deve entender. Freud dizia
isso, não é?
- Talvez.
- É. E esse aqui tem comichão no
saco. Não consegue parar de comer a mãe daquele. – aponta para outro lado da
mesa. Todos estão curvados de tanto rir e batendo suas palmas da mão na mesa
como se estivessem pedindo clemência. – Esses dias mesmo esse louco me disse
que andava comendo a minha irmã...
- Andava não: ainda como.
- Como é? – pausa de suspense –
Mas eu te dou um soco nessas bolas murchas que vai te fazer falar fino! Ah,
não! Peraí! Lembrei agora! (A parte)É
que o cara fica velho, aí é foda... (Para
todos) Tu não tem mais bolas depois daquela cirurgia de transgenitarização.
- Bah, pegou pesado! – diz outro.
- Tu tá defendendo ele, é? Ih...
Já entendi. Ele anda te comendo, é?
(gargalhadas)
- Pode falar mesmo, estamos aqui
entre amigos, todo mundo se conhece e já trocou intimidade. Esses dias ele me
deu uma chupada gostosa (olha para o homem a sua frente). Como ta tuas costas,
Carlos?
- Tão ainda doloridas... A tua
mãe não me dá descanso! – responde Carlos com o copo prestes a ser bebido.
Todos voltam a gargalhar. Praticamente, não há pausa entre uma piada e outra de
tanto trago e bom humor.
- Ih... Mas vai tomar no cu,
filho da puta. Comi tua irmã ontem e ela me disse que não sabia o que era
homem. O que tu tem feito?
- Ele anda arrumando o cabelo,
fazendo a barba e escutando Ney Matogrosso. – Intromete-se Ricardo.
- BAH! Ney Matogrosso! – em coro,
todos.
- É putão, to falando... Caetano
Veloso, Ney Matogrosso, Maria Bethânia, tudo coisa de menininha. Música de
macho tem que ter cheiro de corpo! Ó – diz estufando o peito e mostrando o
braço com as veias saltadas – Olha que coisa viril!
- Ah, Caetano Veloso é bom.
- Ih!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
- Vai dizer que tu não gosta? Tu
diz isso por não entender o que ele canta!
- Mas tu entende? O cara canta
com o pau dos outros na boca e fala fino como se tivessem metendo atrás.
(mais risadas)
- Que barbaridade...
-Bah, baixou o nível...
- Eu baixei outra coisa...
(risadas)
- Hein, ô, vou te contar...
Baixei as calcinhas da tua mãe. Que porra de tamanho que ela usa? Deus o livre!
Fiquei horas tentando comer ela.
- Ih! A velha te matou no
cansaço?
- Não. Quem me matou no cansaço
foi tu irmã, mesmo, aquela vadia! Matou eu e mais três amigos meus ao mesmo
tempo.
-BaH! Pega leve, Raul!
(gargalhadas.)
- Isso que dá ficar escutando
essas músicas...
- Caetano Veloso, Gilberto Gil e
Chico Buarque... tudo coisa de sentimentalista que não sabe nada.
- Não, não! – intromete-se
Fernando. – Gilberto Gil e Chico Buarque, não!
- Agora pegou!
- Isso tudo é música vitaminada.
É coisa linda.
- Te apaixonou por aqueles olhos
azuis, né? Pode dizer pra nós... (todos riem)
- Quê, quê, rapaz... Me apaixonei
por outra coisa de olhos azuis que tu deve conhecer... aliás, manda um abraço e
um beijo pra tua mãe. Diz praquela vadia me ligar.
(mais risadas)
- Taí a cerveja gelada – diz o
dono do bar.
- Ô, negão! Esse aqui diz que ta
comendo tua irmã, não vai dizer nada pra ele não?
- Tu tá comendo minha irmã, cara?
Que porra é essa, caralho?
- Ela é fogosa, negão, que que eu
posso fazer?
- Não, peraí que agora eu fiquei
confuso... Não pode ser tu, pois ela me disse que o Raul não tem nada entre as
pernas.
- Bah!!!!!!!!!!!! (gritaria e
bateção de mesa em plenas risadas. Uma pessoa passa na rua e olha com cara de
espanto para o bar).
- Te descobriram, Raul.
- O cara não aguenta depois da 5ª
vez na mesma noite... Falei que ela era fogosa. – defende-se.
- Mas, ô, negão, é gostosa tua
irmã, puta que o pariu...
- Alguém tinha que ser bom nessa família,
né?
- É verdade...
Aparece aquele silêncio de
assunto morrido, aquele suspense de reinício de conversa até que alguém tenta
renascer de novo...
- Ô, filho da puta – chama a
atenção dando um tapa nas costelas – esses dias vi tua mãe brigando com os
travestis lá na esquina.
- Vai tomar no cu antes que eu me
esqueça.
- Porra, eu to sendo amigo em te
avisar e é assim que tu me trata? Ora... Vai te fuder... Bem que o Ricardo disse
que eu tinha que comer a tua irmã, aquela vadia gostosa. Ô louco, tinham que
ver como era a cena. Aquela pitanga!
- Malvado, malvado... – diz Ricardo.
- Olha só gente, parem de
frescura senão eu vou fechar essa porra, tão ouvindo? Eu vou fechar esse bar e
mandar todo mundo tomar no cu e sair daqui.
- Ah, vai tomar banho, negão! Se
tu fechar como tu vai pagar as contas?
- Ué, mas a tua mãe não disse que
eu to comendo ela e que ela me banca? Ih, rapaz, ela disse que ia te avisar!
E todos gargalham como se não
tivesse o amanhã, como se não fosse necessário prestar contas, bater ponto,
justificar faltas ou pagar algum aluguel exploratório; como se o Grêmio tivesse
sido campeão do mundo ou o inter campeão do brasileirão; como se o país não
sofresse de corrupção e não houvesse mais miséria no mundo; como se as pessoas
não precisassem catar comida nos lixos ou pedir para o caminhão do lixo
seletivo parar para poderem coletar uma madeira ou papelão que serviria de
sustentação de suas casas; como se houvesse paz e não mais exploração; como se
todos fossemos um só; como se a música fosse a única linguagem universal; como
se a eternidade fosse uma nostalgia bucólica de bem viver e bem agir e como se
as pessoas, de fato e indubitavelmente, tivessem livre-arbítrio e não fossem
abusadas em seus trabalhos pelos seus chefes ou pelo próprio Leviatã de
Hobbes...; como se o fim do mundo estivesse chegando e suas almas estivessem
sido salvas pelos arcanjos e pelo próprio Deus.
Matheus I. Mazzochi